A tecnodiversidade na EPT

A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Brasil tem se consolidado como uma modalidade de ensino que articula trabalho, ciência, tecnologia e cultura. Ao analisar esta modalidade educacional sob a perspectiva da tecnodiversidade, podem surgir importantes reflexões sobre como as diferentes cosmotécnicas e relações tecnológicas podem contribuir para a proposta da formação integral dos estudantes e para a valorização diferentes formas de saber técnico e tecnológico.

Assista à vídeo-aula abaixo para aprofundar seu entendimento sobre as contribuições da tecnodiversidade para a EPT.

Os Institutos Federais: perspectivas e desafios para a Tecnodiversidade

Conforme estabelecido em sua lei de criação (11.892/2008), os Institutos Federais têm por finalidades e características:

I - ofertar educação profissional e tecnológica, em todos os seus níveis e modalidades, formando e qualificando cidadãos com vistas na atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional;

II - desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo e investigativo de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas sociais e peculiaridades regionais;

III - promover a integração e a verticalização da educação básica à educação profissional e educação superior, otimizando a infra-estrutura física, os quadros de pessoal e os recursos de gestão;

IV - orientar sua oferta formativa em benefício da consolidação e fortalecimento dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais, identificados com base no mapeamento das potencialidades de desenvolvimento socioeconômico e cultural no âmbito de atuação do Instituto Federal;

V - constituir-se em centro de excelência na oferta do ensino de ciências, em geral, e de ciências aplicadas, em particular, estimulando o desenvolvimento de espírito crítico, voltado à investigação empírica;

VI - qualificar-se como centro de referência no apoio à oferta do ensino de ciências nas instituições públicas de ensino, oferecendo capacitação técnica e atualização pedagógica aos docentes das redes públicas de ensino;

VII - desenvolver programas de extensão e de divulgação científica e tecnológica;

VIII - realizar e estimular a pesquisa aplicada, a produção cultural, o empreendedorismo, o cooperativismo e o desenvolvimento científico e tecnológico;

IX - promover a produção, o desenvolvimento e a transferência de tecnologias sociais, notadamente as voltadas à preservação do meio ambiente.

Relacionando as características e finalidades dos Institutos Federais apresentadas anteriormente com as discussões desenvolvidas nesta pesquisa até aqui, identifica-se o alinhamento do conceito de tecnodiversidade no contexto da Educação Profissional e Tecnológica. A seguir, apresentam-se os principais pontos de destaque:

- Desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional, e geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas sociais e às peculiaridades regionais: nesta pesquisa, entende-se que essas finalidades dos IFs alinham-se diretamente à ideia de múltiplas cosmotécnicas. Na adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas e peculiaridades regionais, reconhece-se que cada território pode exigir respostas específicas, fundamentadas em saberes e práticas locais. Nesse sentido, a questão da territorialidade dos IFs oferece um cenário concreto para a investigação e o desenvolvimento de tecnologias vinculadas às realidades específicas, desafiando a visão universalista da tecnologia e promovendo a busca por alternativas tecnológicas e a valorização do saber tecnológico local.

Ainda, de acordo com Silva e Pacheco (2022, p. 10), 'se cada IF tem por função ouvir e articular as demandas de seu território, consequentemente a Rede permite a ampliação da escuta e da ação para todo o país [...]'. Entende-se que, dessa forma, viabiliza-se a ampliação do acesso à tecnodiversidade brasileira.

- Verticalização do Ensino e Organização Pluricurricular: Silva e Pacheco (2022) indicam que os IFs atuam em diferentes níveis e modalidades educacionais, organizando seus currículos de forma a permitir fluxos formativos entre os diferentes cursos. Essa verticalização possibilita que estudantes e docentes transitem por diferentes campos de conhecimento e tecnologias, promovendo a integração de saberes e a diversidade tecnológica nos processos formativos.

- Desenvolvimento de programas de extensão e de divulgação científica e tecnológica: os programas de extensão e divulgação científica e tecnológica podem contribuir para as discussões sobre as diferentes cosmotécnicas e tecnologias sociais, ao evidenciar a importância da pluralidade no desenvolvimento tecnológico e incentivar a participação das comunidades. Também, podem configurar-se como espaços de diálogo e mapeamento das questões tecnológicas e das técnicas presentes nas localidades, promovendo o intercâmbio de saberes e a criação de soluções tecnológicas contextualizadas.

- Desenvolvimento e a transferência de tecnologias sociais: a tecnologia social é "um conjunto de técnicas, metodologias transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por ela, que representam soluções para inclusão social e melhoria das condições de vida (ITS, 2004, p. 26).”

A tecnologia social e a tecnodiversidade são conceitos que podem ser relacionados, mas possuem enfoques diferentes, conforme indicado no quadro abaixo:

Quadro 5 – Aspectos da Tecnologia Social e da Tecnodiversidade
Aspectos Tecnologia Social Tecnodiversidade
Foco Principal Solução de problemas sociais e ambientais. Busca a diversidade cultural e tecnológica e crítica ao modelo universal de desenvolvimento tecnológico.
Abordagem Soluções técnicas e tecnológicas para a resolução de problemas locais com uma construção participativa. Questiona a homogeneização tecnológica e o controle exercido por um modelo único de tecnologia, buscando alternativas que respeitem as particularidades locais e culturais.
Papel na EPT Utiliza processos educativos para a disseminação e apropriação de tecnologias sociais, valorizando os saberes locais e a participação da comunidade. Precisa de uma educação que questione a racionalidade instrumental da tecnologia e valorize a diversidade de conhecimentos, a criatividade, o pensamento crítico e a capacidade de inovação.
Dimensão Política Transformação social e participação popular. Reconhecimento cultural e descolonização do saber.

Nesse contexto, a tecnologia social e a tecnodiversidade podem configurar-se como conceitos complementares na Educação Profissional e Tecnológica. A tecnodiversidade fundamenta a compreensão epistemológica de que existem múltiplas formas de tecnologia e racionalidades tecnológicas, enquanto a tecnologia social constitui-se como uma estratégia para a aplicação desse entendimento na formulação de soluções contextualizadas, voltadas às demandas específicas de diferentes grupos sociais.

Ainda, ao trazer a necessidade de promoção das tecnologias sociais, “notadamente as voltadas à preservação do meio ambiente” (Brasil, 2008), alinha-se à perspectiva de Hui sobre as questões ambientais e sobre a necessidade de um novo desenvolvimento tecnológico, baseado na diversidade de cosmotécnicas, que busque imaginar futuros fora da lógica destrutiva hegemônica.

Além dos pontos apresentados, ao trazer a teoria de Hui para o campo da educação profissional e tecnológica, entende-se que as discussões sobre tecnodiversidade e a interação entre cultura, tecnologia e natureza podem contribuir para o enfrentamento da alienação técnica.

Apesar dos pontos de convergência identificados, existem importantes desafios a serem considerados: a) Integração entre teoria e prática: a tecnodiversidade exige uma abordagem que integre os conhecimentos teóricos com a prática, permitindo aos alunos aplicar seus conhecimentos em contextos reais e valorizar diferentes formas de conhecimento, incluindo as práticas locais. b) Formação Docente: a formação dos professores mediante as adequadas condições institucionais para trabalhar com diferentes cosmotécnicas e diferentes formas de conhecimento. c) Integração com as comunidades locais: para que as discussões sobre tecnodiversidade avancem, se faz necessário uma forte interação entre as comunidades locais, setores produtivos e os espaços de produção do conhecimento.


Bibliografia básica

DI DEUS, Eduardo. Tecnodiversidade e educação: reflexões a partir de aprendizagens técnicas no meio rural. Áltera Revista de Antropologia, João Pessoa, Número 16, 2023, p. 1-28. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/altera/article/download/67000/38816/207484 (abre em nova aba) .


Resumo

  • A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Brasil é uma modalidade de ensino que integra trabalho, ciência, tecnologia e cultura.
  • Pontos de convergência entre as finalidades da EPT e a tecnodiversidade: mapeamento e fortalecimento das potencialidades locais, reconhecendo que cada região pode necessitar de soluções tecnológicas distintas, valorização da diversidade de saberes na construção de tecnologias e foco na adaptação e inovação dentro das realidades regionais.

Glossário

Educação Profissional: é uma modalidade de ensino que visa qualificar e preparar os indivíduos para o mundo do trabalho.

Educação Tecnológica: uma abordagem que visa a formação de indivíduos capazes de compreender e interagir criticamente com a tecnologia. Ela vai além do simples treinamento técnico, buscando desenvolver uma compreensão ampla da tecnologia, seus fundamentos científicos, culturais, seus impactos sociais e suas aplicações práticas.


📚 Materiais Complementares

Para aprofundar seus conhecimentos sobre tecnodiversidade e educação, sugerimos a leitura do artigo “Pensar as Tecnologias a partir de Gilbert Simondon e Yuk Hui” de Andréia Machado Oliveira, disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/120769 (abre em nova aba)