A questão da tecnologia na EPT

Conheça a linha do tempo da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Brasil.

Linha do tempo da Educação Profissional e Tecnológica no Brasil.

A Educação Profissional passou a ser denominada oficialmente como "Educação Profissional e Tecnológica" no Brasil com a Lei nº 11.741 de 2008, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96). Esta mudança representou um avanço em relação à visão tradicional da educação profissional como mera preparação de mão de obra para o mundo do trabalho, pois a educação tecnológica entende que a capacitação técnica não deve ser separada do desenvolvimento pessoal, cultural e social.

A Educação Profissional e Tecnológica configura-se como uma modalidade de ensino voltada para as dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia. A modalidade apresenta os seguintes níveis de formação:

  • Formação Inicial e Continuada (FIC) ou Qualificação Profissional.
  • Educação Profissional Técnica de Nível Médio.
  • Educação Profissional Tecnológica de graduação e pós-graduação.
  • Atualmente, os cursos da EPT se dividem em 13 eixos tecnológicos, sendo eles: Ambiente, Saúde e Segurança; Controle e Processos Industriais; Gestão e Negócios; Hospitalidade e Lazer; Informação e Comunicação; Infraestrutura; Produção Alimentícia; Produção Cultural e Design; Produção Industrial; Recursos Naturais; Apoio Escolar; Militar; Segurança.

    Conforme Lucília Machado, A estruturação da EPT em eixos tecnológicos proporciona uma identidade tecnológica a essa modalidade de ensino; auxilia na determinação da densidade tecnológica exigida pelos cursos; possibilita o resgate do histórico e da lógica do desenvolvimento dos conhecimentos tecnológicos; orienta as políticas de oferta nacional da Educação Profissional Técnica; permite refletir sobre convergências e diversidades dessa educação sob a perspectiva tecnológica; oferece suporte mais consistente à definição curricular e às demandas infraestruturais; facilita a organização de itinerários formativos; aprimora a orientação para o trabalho interdisciplinar; contribui para a racionalização dos recursos humanos e de infraestrutura; e favorece a análise do aproveitamento de estudos realizados previamente.

    Os Institutos Federais

    Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia desempenham um papel de grande importância na consolidação da educação profissional e tecnológica no Brasil.

    De acordo com o livreto da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica, Concepções e Diretrizes (2008), “O foco dos Institutos Federais será a justiça social, a equidade, a competitividade econômica e a geração de novas tecnologias. Responderão, de forma ágil e eficaz, às demandas crescentes por formação profissional, por difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos e de suporte aos arranjos produtivos locais.”

    Os Institutos Federais devem atuar para desenvolvimento local, regional e nacional, promovendo inovações, a pesquisa aplicada e a extensão, visando às soluções tecnológicas e científicas. A lei também destaca o compromisso dessas instituições com o ensino de ciências, a formação crítica e a divulgação científica, consolidando-os como referências não apenas na educação, mas também no fomento ao empreendedorismo, à cooperação e à preservação ambiental.

    Os Institutos Federais têm um papel fundamental como produtores de ciência e tecnologia e, conforme estabelecido em sua lei de criação (11.892/2008), devem promover pesquisas aplicadas que busquem o desenvolvimento de soluções técnicas e tecnológicas, estendendo seus benefícios à comunidade. No contexto dos cursos, além de proporcionar acesso aos bens científicos, tecnológicos e culturais, é essencial compreender a realidade local e desenvolver, em conjunto com os estudantes, soluções que possam aprimorar as condições de vida e trabalho da comunidade. Ainda, na busca pela efetiva integração entre educação básica, profissional e superior, torna-se fundamental apresentar os diferentes níveis de conhecimento de cada área, permitindo que os estudantes compreendam seus fundamentos, metodologias, técnicas e tecnologias. Essa abordagem integrada possibilita uma visão integral do campo de estudo e desperta nos alunos a consciência de seu potencial para contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico.

    Outra característica é a transversalidade e verticalização. De acordo com Pacheco (2011, p. 24-25), “a verticalização, por seu turno, extrapola a simples oferta simultânea de cursos em diferentes níveis sem a preocupação de organizar os conteúdos curriculares de forma a permitir um diálogo rico e diverso entre as formações. Como princípio de organização dos componentes curriculares, a verticalização implica o reconhecimento de fluxos que permitam a construção de itinerários de formação entre os diferentes cursos da educação profissional e tecnológica: qualificação profissional, técnica, graduação e pós-graduação tecnológica. A transversalidade auxilia a verticalização curricular ao tomar as dimensões do trabalho, da cultura, da ciência e da tecnologia como vetores na escolha e na organização dos conteúdos, dos métodos, enfim, da ação pedagógica.”

    Sua concepção pedagógica é orientada pela integração e articulação entre ciência, tecnologia, cultura e conhecimentos específicos, bem como pelo desenvolvimento da capacidade de investigação científica. Busca-se a superação da dicotomia entre teoria e prática, com a pesquisa como princípio educativo e a extensão como diálogo permanente com a sociedade (Brasil, 2010).

    A Tecnologia na Educação Profissional e Tecnológica

    Ao analisar a legislação e os principais documentos orientadores da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Brasil, observa-se um ponto importante: não há uma concepção epistemológica clara sobre os conceitos de técnica e tecnologia nesses materiais.

    Na maioria das vezes, os documentos tratam técnica e tecnologia sob uma perspectiva instrumentalista. Isso significa que são entendidas principalmente como ferramentas ou meios para atingir determinados fins, o que limita uma compreensão mais ampla e crítica desses conceitos.

    Além disso, percebe-se uma hierarquização entre técnica e tecnologia: A técnica é frequentemente associada a habilidades práticas e operacionais. A tecnologia, por sua vez, aparece como algo mais complexo, vinculado ao conhecimento científico e teórico.

    Essa visão reforça a tradicional separação entre teoria e prática. Como destaca Souza (2024), apesar de existirem tentativas de superação dessa dualidade na EPT, ela ainda se faz presente. Isso acaba subordinando o saber técnico ao conhecimento científico, enfraquecendo o reconhecimento do valor da prática na construção do saber.

    No entanto, quando se analisam as concepções de técnica e tecnologia a partir dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, existe um aprofundamento no entendimento desses conceitos.

    Ao falar sobre tecnologia, o livreto Concepções e Diretrizes dos Institutos aponta que

    “Em seu perfil mais específico, o da formação profissional, cabe-lhe, principalmente, o dever de traduzir o conhecimento científico sob o aparato das tecnologias – aqui também entendidas como manifestação da essência do homem, porquanto contribui em configurá-lo para o meio e este para ele. Entende-se, portanto, que as tecnologias são produtos da ação humana, historicamente construídos, expressando relações sociais das quais dependem, mas que também são influenciadas por eles.”

    Nesse contexto, a professora Lucília Machado (2021) contribui com uma importante sistematização dos diferentes conhecimentos e saberes convocados pela tecnologia na EPT. Segundo ela, esse campo envolve:

  • Conhecimento sobre o meio e os ambientes técnicos;
  • Conhecimento sobre os objetos técnicos;
  • Conhecimento sobre os componentes e materiais utilizados;
  • Conhecimento sobre procedimentos, métodos e regras (nas sua diferentes dimensões);
  • Conhecimento sobre ferramentas físicas, conceituais e simbólicas;
  • Conhecimentos sobre os termos utilizados;
  • Conhecimentos sobre gestos humanos;
  • Conhecimento sobre o que assegura alguém ao intervir sobre uma realidade;
  • Conhecimento sobre a cultura no contexto da sociedade;
  • Conhecimentos dos saberes tradicionais;
  • Conhecimento da interação da ciência com a técnica.
  • Essa abordagem evidencia que a técnica e a tecnologia não podem ser compreendidas apenas como aplicação de conhecimentos científicos. Assim, ao analisar a proposta da Educação Profissional e Tecnológica e dos Institutos Federais sob as perspectivas teóricas de Álvaro Vieira Pinto e Andrew Feenberg, identificam-se importantes convergências que contribuem para a compreensão do papel da tecnologia na educação. A visão de tecnologia apresentada no livreto alinha-se ao pensamento de Vieira Pinto, que a define como uma expressão da capacidade humana de transformar o mundo e a si mesmo.

    Para Feenberg, a tecnologia é compreendida como uma construção social que pode ser democraticamente transformada. Essa alinha-se à proposta da EPT ao enfatizar a integração entre conhecimento científico-tecnológico e as necessidades sociais, levando em consideração os arranjos produtivos locais e promovendo justiça social e equidade.

    Feenberg também reforça a importância da democratização das decisões tecnológicas. Sua teoria dialoga diretamente com a proposta dos IFs, que visam formar profissionais não apenas aptos a operar tecnologias, mas também capazes de participar ativamente de sua criação e transformação, considerando os impactos sociais e ambientais de suas escolhas.

    A visão da tecnologia como uma construção social, a busca pela democratização do conhecimento tecnológico e o compromisso com a formação integral convergem para consolidar um modelo educacional que transcende a simples capacitação técnica. Esse modelo reconhece a tecnologia como uma dimensão essencial da experiência humana, promovendo a formação de profissionais aptos a compreender e transformar as relações sociais que moldam o desenvolvimento tecnológico.


    Bibliografia básica

    BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Profissional e Tecnologia. Concepções e Diretrizes: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. 2008. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/setec/arquivos/pdf3/ifets_livreto.pdf (abre em nova aba) .

    CAMINHA NETO, Aloísio Ribeiro; CASTILHO, Fábio Francisco de Almeida. O debate da filosofia crítica da tecnologia no ensino médio integrado profissional: Estratégias para uma Educação humana, crítica e libertadora. Itinerarius Reflectionis, Jataí-GO., v. 18, n. 1, p. 01–19, 2022. Disponível em: https://revistas.ufj.edu.br/rir/article/view/64199 (abre em nova aba) .

    MADUREIRA, João Cláudio. A Ciência e a Tecnologia nos Institutos Federais e seu potencial transformador: Um Breve Diálogo Com Álvaro Vieira Pinto (E o Materialismo Histórico-Dialético). Desenvolvimento e Civilização: v. 1, 2020. p. 102- 115. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/rdciv/article/view/55183/36398 (abre em nova aba) .


    Resumo

    • A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Brasil representa uma evolução no ensino profissionalizante, estabelecida pela Lei nº 11.741 de 2008.
    • Os Institutos Federais (IFs), criados em 2008, são pilares fundamentais da EPT, tendo como missão promover justiça social, desenvolvimento econômico e inovação tecnológica.
    • A tecnologia na EPT vai além do uso instrumental, sendo entendida como uma construção social que deve ser democratizada. A EPT busca formar profissionais que não apenas utilizem as tecnologias, mas sejam capazes de compreendê-las criticamente, criá-las e transformá-las, considerando seus impactos sociais e ambientais.