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Conceito de Tecnodiversidade
Se dialogamos sobre a biodiversidade e outros tipos de diversidade, por que tradicionalmente não falamos sobre a diversidade tecnológica? Esta é a provocação inicial do filósofo Yuk Hui, que nos convida a explorar o conceito da tecnodiversidade.
Antes de tratarmos do conceito de tecnodiversidade, vamos entender o seu contexto com a vídeo-aula a seguir:
Partindo de uma análise histórica, Hui (2020) afirma que a competição tecnológica do século XX definiu a geopolítica e a história. Além disso, difundiu a ideia de uma tecnologia moderna, de caráter meramente instrumental, como algo homogêneo e universal e, nesse sentido, separado das outras dimensões da sociedade.
Esse universalismo tecnológico desconsiderou os conhecimentos locais, os contextos culturais e as necessidades específicas de cada povo. Como resultado, muitas formas tradicionais e alternativas de tecnologia foram ignoradas ou desvalorizadas.
Neste contexto de universalização tecnológica, o poder tecnologicamente mais forte exportou, além de seus conhecimentos e técnicas, suas epistemologias, desconsiderando outras formas de compreensão técnica e cultural, apagando, assim, uma multiplicidade de técnicas. Essa universalização atuou com o apagamento das interioridades locais, transformando a diversidade técnica e cultural em uma cultura monotecnológica, e a “competição baseada na monotecnologia está devastando os recursos da Terra em prol da competição e do lucro e impedindo que qualquer dos participantes tome rotas ou caminhos alternativos” (Hui, 2020, p. 201).
Tecnodiversidade como Alternativa
Como uma possível forma de equilibrar a monotecnologização e alterar modelo de desenvolvimento tecnológico, Hui (2020) formula o conceito de Tecnodiversidade, entendido como uma forma de abordar a diversidade tecnológica presente nas diferentes regiões do mundo, buscando uma compreensão da tecnologia e da cultura para a criação de novas trajetórias tecnológicas. Ainda, para o autor, cada povo tem suas cosmotécnicas, que é a unificação do cosmos (universo) e da moral por meio de atividades técnicas. Seria, portanto, a ideia de que diferentes culturas têm diferentes abordagens para a tecnologia.
A multiplicidade de cosmotécnicas sugere que não existe apenas uma ou duas técnicas universais, mas sim muitas abordagens que variam conforme a moralidade e o cosmos de cada cultura. Para enfrentar as crises contemporâneas — como o Antropoceno e suas implicações — é essencial rearticular a questão da tecnologia, buscando futuros tecnológicos diversos tendo em mente a concepção de cosmotécnicas distintas.
Hui (2020) ilustra o mito da universalidade técnica ao discutir o uso de pesticidas como uma solução global para pragas em plantações, mas que dependem de fatores locais como ar, clima, etc., para funcionar efetivamente.
No Brasil, a técnica agrossilvipastoril já se mostrou como uma alternativa ao uso de pesticidas para a produção, sendo uma possibilidade que considera as técnicas e os aspectos locais, uma possível cosmotécnica.
A proposta de tecnodiversidade não é uma luta contra as tecnologias modernas, mas sim uma reapropriação criativa delas. A tecnodiversidade se distingue claramente de movimentos conservadores; ela não busca restaurar tradições ou promover nacionalismos, mas sim reconhecer o local como um espaço ativo capaz de apropriar-se criativamente dos fluxos materiais e imateriais.
A discussão sobre tecnodiversidade nos convida a refletir sobre as relações entre tecnologia e cultura em um mundo cada vez mais interconectado. Ao invés de buscar soluções universais e homogêneas, é crucial valorizar as particularidades locais e promover um diálogo entre diferentes cosmotécnicas. Essa abordagem pode abrir novos caminhos para um desenvolvimento tecnológico mais sustentável e inclusivo.
Bibliografia básica
HUI, Yuk. Cosmotécnica como cosmopolítica. In: HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu, 2020. p. 21- 46.
MARIUTTI, Eduardo Barros. Tecnodiversidade, cosmotécnica e cosmopolítica: notas sobre o pensamento de Yuk Hui. Lugar Comum–Estudos de mídia, cultura e democracia, n. 62, p. 146- 159, 2022. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/lc/article/view/49578 (abre em nova aba) .
Resumo
- No século XX, a competição tecnológica moldou a geopolítica e difundiu uma visão universalista da tecnologia moderna, tratando-a como algo homogêneo e separado das dimensões sociais.
- O universalismo tecnológico resultou no desprezo pelos conhecimentos locais e técnicas tradicionais, com as potências tecnológicas exportando não apenas suas técnicas, mas também suas epistemologias.
- Como alternativa a homogeneização, Hui propõe o conceito de Tecnodiversidade, que reconhece e valoriza as diferentes abordagens tecnológicas presentes no mundo.
- A tecnodiversidade não se opõe às tecnologias modernas, mas propõe sua reapropriação criativa, evitando nacionalismos ou tradicionalismos extremos.
Glossário
Antropoceno: termo utilizado para descrever uma nova época geológica caracterizada pelo impacto significativo das atividades humanas sobre o planeta.
Globalização unilateral: processo histórico em que um único modelo político, econômico ou tecnológico (geralmente oriundo de potências ocidentais) é imposto como padrão global.
Monotecnologia: Adoção de uma única abordagem tecnológica globalmente, em detrimento da diversidade de práticas e conhecimentos técnicos.
Técnica agrossilvipastoril: sistema integrado de produção agrícola, florestal e pecuária que valoriza práticas locais e sustentáveis.
📚 Leitura Complementar
Para conhecer um pouco mais do pensamento do filósofo Yuk Hui, sugerimos a leitura da entrevista “A tecnodiversidade implica em pensar divergências no seio do desenvolvimento tecnológico”, disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/602272-a-tecnodiversidade-implica-pensar-divergencias-no-seio-do-desenvolvimento-tecnologico-entrevista-com-yuk-hui (abre em nova aba)