A tecnologia pelo construtivismo crítico de Andrew Feenberg

Esta etapa do curso online pretende explorar a perspectiva crítica da tecnologia desenvolvida pelo filósofo contemporâneo Andrew Feenberg. O ponto central de sua teoria está na crítica à neutralidade da tecnologia, argumentando que ela é intrinsecamente moldada por valores sociais e políticos. Feenberg (2013a) apresenta quatro perspectivas que direcionam as discussões sobre tecnologia:

Instrumentalismo

Nesta abordagem, a tecnologia é vista como uma ferramenta neutra e meramente instrumental, um meio para atingir fins. Sob essa ótica, a tecnologia em si não carrega valores ou determinações, sendo apenas um recurso a serviço de objetivos humanos.

Determinismo Tecnológico

Em contraste, o determinismo tecnológico entende a tecnologia como uma força autônoma e independente, capaz de moldar a sociedade de maneira determinante. Nessa perspectiva, o desenvolvimento tecnológico segue sua própria lógica, impondo transformações sociais.

Substantivismo

O substantivismo compreende a tecnologia como intrinsecamente carregada de valores e significados sociais específicos. Nessa visão, os artefatos tecnológicos incorporam escolhas, interesses e perspectivas de determinados grupos, modelando assim modos de vida e organizações sociais.

Feenberg critica as visões tradicionais expostas acima por oferecerem um quadro teórico limitado para a compreensão da tecnologia. Ele propõe então a:

Teoria Crítica da Tecnologia

Também conhecida como construtivismo crítico, essa abordagem reconhece a tecnologia como um fenômeno socialmente construído e suscetível ao controle humano, porém invariavelmente marcado por dimensões éticas e políticas. Aqui, a tecnologia não se reduz a uma mera ferramenta neutra, mas reflete escolhas e valores que afetam profundamente a experiência social.

O construtivismo crítico tem como base os fundamentos providos pelos estudos de caso da Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), o conceito de subdeterminação e a unidade ou ordem sociotécnica. Vamos explorar mais profundamente o Construtivismo Crítico no vídeo a seguir.

Como acompanhamos na vídeo-aula, Feenberg (2013b) afirma que as tecnologias são carregadas de valores e que seu desenvolvimento é determinado tanto por questões técnicas quanto por critérios sociais. Assim, os objetos, além de técnicos, são também sociais. Vimos também como Feenberg (2013b) destaca o potencial de liberdade e controle democrático no desenvolvimento e design tecnológico. Nessa perspectiva, a sociedade não se transforma apenas por meio das instituições políticas, mas também por meio das infraestruturas tecnológicas. Com a articulação de grupos sociais, podem ocorrer reconfigurações dessas infraestruturas tecnológicas e a construção de outros possíveis mundos. Nesse sentido, o autor defende a democratização da tecnologia, onde o processo de desenvolvimento das tecnologias deve ser democratizado, proporcionando conhecimento técnico e identificando as necessidades da sociedade, revertendo a lógica atual que privilegia e mantém a hegemonia tecnológica.


Bibliografia básica

FEENBERG, Andrew. O que é a filosofia da tecnologia? In: NEDER, Ricardo Toledo. A teoria crítica de Andrew Feenberg: racionalização democrática, poder e tecnologia. 2ª, Brasília: Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina/CDS/UnB/Capes, 2013a. p. 49-66. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/Coletanea.pdf (abre em nova aba) . Acesso em: 10 dez. 2024.

FEENBERG, Andrew. Racionalização subversiva: tecnologia, poder e democracia. In: NEDER, Ricardo Toledo. A teoria crítica de Andrew Feenberg: racionalização democrática, poder e tecnologia. 2ª, Brasília: Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina/CDS/UnB/Capes, 2013b. p. 67-98. Disponível em: https://www.sfu.ca/~andrewf/Coletanea.pdf (abre em nova aba) . Acesso em: 10 dez. 2024.


Para refletir

De que maneira os diferentes grupos sociais podem exercer uma participação mais ativa no processo de desenvolvimento tecnológico, superando a atual lógica hegemônica e promovendo uma democratização efetiva da tecnologia?


Resumo

  • Feenberg critica a ideia de neutralidade da tecnologia e aponta a tecnologia como fenômeno socialmente construído.
  • Abordagens Teóricas Tradicionais de Tecnologia: Instrumentalismo: tecnologia como ferramenta neutra; Determinismo Tecnológico: tecnologia como força autônoma e Substantivismo: tecnologia carregada de valores sociais específicos
  • O construtivismo crítico reconhece a construção social da tecnologia, enfatiza o controle humano e as dimensões éticas e valoriza a participação social no desenvolvimento tecnológico.

Glossário

Co-construção: O processo pelo qual a tecnologia e a sociedade se moldam mutuamente ao longo do tempo.

Códigos Técnicos: Normas e padrões que orientam o design, desenvolvimento e uso da tecnologia, incorporando valores sociais e políticos.

Intrumentalização Primária: Foco nos aspectos técnicos de design e eficiência, visando o controle sobre a natureza.

Instrumentalização Secundária: Consideração das implicações sociais da tecnologia e seu impacto nos indivíduos e na sociedade.

Subdeterminação: A existência de múltiplas soluções tecnológicas possíveis para um determinado problema, indicando que a escolha da solução implementada é influenciada por fatores sociais.


📚 Materiais Complementares

Para aprofundar seus conhecimentos, sugerimos o acesso à página de obras de Andrew Feenberg em https://www.sfu.ca/~andrewf/translations.html (abre em nova aba) e ao artigo "Criticando e avançando o Construtivismo Crítico a partir do Sul Global" do Professor Cristiano Cordeiro Cruz, disponível em https://www.scielo.br/j/trans/a/5kbzpzhfGhVtKTq53P69Xmf/ (abre em nova aba)